A Shineray enfrenta uma nova etapa da investigação sobre possíveis irregularidades ambientais em motocicletas vendidas no Brasil. Embora o caso tenha começado no fim de 2025, uma rodada recente de testes técnicos ampliou os questionamentos sobre a fabricação dos modelos da marca.
Além disso, os resultados podem influenciar diretamente a comercialização de algumas motos. Por enquanto, porém, os órgãos responsáveis ainda analisam os documentos, os laudos e os argumentos apresentados pelas partes envolvidas.
Denúncia colocou a Shineray sob investigação

A Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares, a Abraciclo, apresentou uma denúncia contra a Shineray no final de 2025.
Na ocasião, a entidade encaminhou o caso à Secretaria Nacional do Consumidor, a Senacon, que integra o Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Segundo a associação, a fabricante não teria seguido todas as normas técnicas e ambientais que regulam o setor de motocicletas no país. Além disso, a denúncia apontou problemas em veículos produzidos na fábrica de Suape, em Pernambuco.
De acordo com a Abraciclo, algumas motos chegaram às concessionárias sem equipamentos essenciais para o controle de emissões. Entre os itens citados estavam o catalisador, o cânister e o sistema de ventilação do cárter.
Esses componentes ajudam a controlar gases e vapores gerados pelo motor. Por isso, a ausência desses sistemas pode aumentar a quantidade de poluentes liberada pelo escapamento.
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Fabricante questionou os primeiros testes
Os primeiros laudos indicaram que determinadas motos da Shineray excediam os limites de emissões e ruídos previstos pela legislação brasileira.
No entanto, a fabricante contestou os resultados. A empresa argumentou que laboratórios associados à Abraciclo conduziram as análises iniciais.
Dessa forma, a Shineray questionou a imparcialidade dos ensaios apresentados durante o processo. Em resposta à contestação, os responsáveis pela investigação solicitaram uma nova avaliação técnica.
Desta vez, um laboratório independente da Marelli realizou os testes. A empresa atua no desenvolvimento de componentes, sistemas eletrônicos e soluções de engenharia para o setor automotivo.
Além disso, os técnicos seguiram os procedimentos determinados pelas normas brasileiras. Assim, a nova rodada buscou reduzir dúvidas sobre os métodos utilizados e a origem dos resultados.
Três motos da Shineray passaram por novos ensaios
Os especialistas avaliaram três modelos comercializados pela fabricante: SHI 150, SHI 175 EFI e XY125 Rio EFI.
Durante os testes, a equipe mediu quatro grupos principais de substâncias: monóxido de carbono, hidrocarbonetos totais, hidrocarbonetos não metano e óxidos de nitrogênio.
O monóxido de carbono, identificado pela sigla CO, surge principalmente durante a queima incompleta do combustível. Em concentrações elevadas, esse gás pode prejudicar a saúde humana.
Já os hidrocarbonetos totais, conhecidos como THC, reúnem diferentes compostos liberados durante a combustão. Enquanto isso, os hidrocarbonetos não metano, chamados de NMHC, participam da formação de poluentes atmosféricos.
Por outro lado, os óxidos de nitrogênio, ou NOx, contribuem para a piora da qualidade do ar. Por isso, a legislação estabelece limites específicos para cada substância.
Resultados apontam emissões acima do permitido
Os novos ensaios apontaram índices superiores aos parâmetros legais nos três modelos avaliados. Além disso, todas as motocicletas excederam os limites nas quatro categorias analisadas.
| Modelo | CO | THC | NMHC | NOx |
|---|---|---|---|---|
| SHI 150 | 17.983,66 mg/km | 513,95 mg/km | 467,39 mg/km | 132,36 mg/km |
| SHI 175 EFI | 2.486,70 mg/km | 334,40 mg/km | 311,50 mg/km | 335,00 mg/km |
| XY125 Rio EFI | 5.016,40 mg/km | 833,10 mg/km | 801,80 mg/km | 214,70 mg/km |
| Limite permitido | 1.000 mg/km | 100 mg/km | 68 mg/km | 60 mg/km |
A SHI 150 apresentou o resultado mais elevado de monóxido de carbono. O modelo registrou 17.983,66 mg/km, enquanto a norma permite até 1.000 mg/km.
Portanto, a motocicleta liberou quase 18 vezes mais CO do que o máximo previsto.
Além disso, a SHI 150 atingiu 467,39 mg/km de NMHC. Nesse caso, o número ficou aproximadamente 6,9 vezes acima do limite de 68 mg/km.
XY125 Rio EFI também apresentou índices elevados
A XY125 Rio EFI registrou 5.016,4 mg/km de monóxido de carbono. Dessa maneira, o resultado superou em cerca de cinco vezes o limite estabelecido.
Entretanto, o maior destaque do modelo apareceu na medição de hidrocarbonetos não metano. A moto atingiu 801,8 mg/km de NMHC, diante de um teto de 68 mg/km.
Assim, a XY125 Rio EFI ultrapassou o parâmetro em aproximadamente 11,8 vezes.
Além disso, o modelo produziu 833,1 mg/km de hidrocarbonetos totais. A legislação, por sua vez, permite até 100 mg/km.
SHI 175 EFI excedeu limite de óxidos de nitrogênio
A SHI 175 EFI apresentou 2.486,7 mg/km de monóxido de carbono. Embora o resultado tenha ficado abaixo dos números encontrados nas outras duas motos, ele ainda superou o limite legal.
Além disso, o modelo registrou 335 mg/km de óxidos de nitrogênio. Como a norma permite até 60 mg/km, a emissão ficou cerca de 5,6 vezes acima do permitido.
Enquanto isso, o índice de NMHC chegou a 311,5 mg/km. Portanto, a motocicleta também excedeu essa categoria em aproximadamente 4,6 vezes.
Abraciclo cita diferenças superiores a 30 vezes
O presidente da Abraciclo, Marcos Bento, afirmou que os resultados reforçaram as suspeitas apresentadas na denúncia.
Segundo o executivo, todos os modelos analisados desrespeitaram as normas brasileiras de emissões. Além disso, Bento declarou que alguns resultados ultrapassaram os parâmetros legais em mais de 30 vezes.
No entanto, a tabela divulgada com os dados dos três modelos mostra uma diferença máxima próxima de 18 vezes. Por isso, a afirmação pode considerar outros cálculos, testes ou critérios que não aparecem nos números detalhados.
Ainda assim, os dados disponíveis indicam que as três motos excederam todos os limites principais avaliados.
Quais punições a Shineray pode enfrentar?
A Senacon ainda não concluiu a investigação. Portanto, o processo não gerou, até o momento, uma decisão definitiva contra a Shineray.
Caso o órgão confirme as infrações, a fabricante poderá receber multas administrativas. Além disso, as autoridades poderão exigir um recall para corrigir possíveis irregularidades nas motocicletas.
A Senacon também poderá determinar o recolhimento de unidades já comercializadas. Em uma medida mais severa, o órgão poderá suspender temporariamente as vendas dos modelos envolvidos.
Contudo, qualquer penalidade dependerá da conclusão do processo e da análise da defesa da empresa. Dessa forma, a investigação ainda precisa esclarecer a responsabilidade da fabricante e o alcance das possíveis irregularidades.
Investigação pode afetar a imagem da fabricante
O caso representa um desafio importante para a Shineray no mercado brasileiro. Afinal, a empresa ampliou sua presença no país com motos de baixa cilindrada e preços competitivos.
Porém, os resultados dos novos testes aumentam a pressão sobre a fabricante. Além disso, uma eventual punição pode afetar concessionárias, proprietários e consumidores interessados nos modelos analisados.
Por fim, a Senacon deverá avaliar os laudos técnicos antes de definir os próximos passos. Até lá, a Shineray continuará no centro da investigação sobre motocicletas que teriam emitido até 18 vezes mais poluentes do que o permitido.