Quem acompanha o GP da Itália em Monza talvez repare em uma estrutura de concreto que passa acima do traçado atual, pouco antes da chicane Ascari. Trata-se da antiga curva inclinada do circuito, um dos símbolos mais marcantes de uma época em que velocidade e risco andavam praticamente lado a lado na Fórmula 1.
Hoje, o trecho já não faz parte das corridas, mas continua preservado dentro do autódromo e ajuda a contar uma parte importante da história do automobilismo.
Monza nasceu para ser um dos circuitos mais rápidos do mundo
O Autódromo de Monza foi inaugurado em 3 de setembro de 1922, depois de apenas três meses de obras.
Mais de 3.000 trabalhadores participaram da construção.
Na época, Monza se tornou apenas o terceiro circuito do mundo criado especificamente para competições, depois de Brooklands e Indianapolis Motor Speedway.
O GP da Itália havia surgido em 1921, em Montichiari, mas passou a ser realizado em Monza já no ano seguinte.
Ao longo das décadas seguintes, pilotos como Tazio Nuvolari e Rudolf Caracciola construíram parte de sua história no circuito.
A velocidade elevada, porém, também trouxe acidentes graves e fatais.

Curva inclinada entrou no traçado em 1954
Depois de reformas que permitiram o retorno do Grande Prêmio da Itália em 1949, Monza ganhou uma configuração ainda mais extrema a partir de 1954.
Foi nessa fase que surgiu a famosa curva inclinada de concreto.
A Fórmula 1 utilizou esse trecho em quatro ocasiões.
Em 1955, Juan Manuel Fangio venceu em Monza e conquistou seu terceiro título mundial.
No ano seguinte, o argentino voltou a garantir o campeonato no circuito italiano depois de Peter Collins ceder seu carro. Luigi Musso, por outro lado, recusou-se a fazer o mesmo.
Riscos fizeram equipes questionarem o circuito
A preocupação com segurança aumentou rapidamente.
Em 1960, a maioria das equipes britânicas decidiu boicotar a corrida, considerando seus carros muito frágeis para enfrentar as exigências da curva inclinada.
O episódio mais grave aconteceu em 1961.
Wolfgang von Trips sofreu um acidente fatal que também provocou a morte de 15 espectadores.
Phil Hill venceu aquela corrida e também conquistou o campeonato, mas a tragédia marcou definitivamente aquela fase de Monza.
Antigo traçado quase foi demolido
Mesmo depois de deixar a Fórmula 1, a curva inclinada continuou sendo utilizada por outras categorias.
Ela também ganhou destaque no filme Grand Prix, lançado em 1966.
O abandono definitivo aconteceu em 1969, depois dos 1000 km de Monza.
Nas décadas de 1980 e 1990, surgiram projetos que poderiam levar à demolição da estrutura.
A campanha “Salve a Curva Inclinada de Monza”, apoiada por nomes como Stirling Moss e John Surtees, ajudou a impedir que isso acontecesse.
Mais tarde, investimentos e obras de recapeamento realizadas em 2014 contribuíram para sua preservação.
Curva de 80% permanece como memória da F1
Atualmente, a antiga curva possui inclinação de até 80% e seria impraticável para os carros modernos da Fórmula 1.
Mesmo assim, ela permanece dentro de Monza como uma lembrança concreta de uma fase muito mais perigosa do automobilismo.
Durante o GP da Itália de 2026, os pilotos utilizarão o traçado atual, enquanto a antiga curva continuará acima da pista, preservando uma parte da história de um esporte que mudou profundamente sua relação com a segurança ao longo das décadas.